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Dançando no escuro |
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Revista Folha | Dez/2000 |
Por Débora Yuri
Centro prepara deficientes visuais com aulas
gratuitas de informática, mobilidade e até educação
física.
Cristiana Mello, 26, tem uma agenda corrida. Formada
em tradução, está concluindo seu segundo curso superior
(letras com habilitação em espanhol). Além dos estudos,
trabalha como professora de informática, faz traduções
em espanhol, francês e inglês e dá aulas particulares da
última língua. Nas horas vagas, gosta de tocar piano,
falar ao telefone e ir a barzinhos com a turma de
amigos. Tudo normal, não fosse uma deficiência física
que tem desde que nasceu, prematura de seis meses:
Cristiana é cega. Perdeu a visão por descolamento da
retina e estouro dos vasos sangüíneos.
"A situação dos deficientes visuais no Brasil está
melhorando muito. Nós temos muito potencial, e as
pessoas estão cada vez mais abertas", diz Cristiana, que
há seis meses ensina informática no CAAD (Centro
Acadêmico de Apoio ao Deficiente) a pessoas com
deficiência idêntica.
O CAAD surgiu há um ano, como uma iniciativa da
Unicid (Universidade Cidade de São Paulo) para ajudar os
alunos deficientes. A princípio, era apenas uma sala
dentro do campus, que fazia a versão em braile de livros
e apostilas utilizados nos cursos universitários.
"Quando percebemos que aquilo era essencial não apenas
para nossos estudantes, mas para a comunidade, decidimos
expandir a área de atuação", conta a coordenadora
Edileine Vieira Machado.
Além de oferecer, a custo zero, aulas de informática,
orientação e mobilidade, educação física adaptada e
atividades da vida diária, o CAAD inicia no próximo ano
um projeto de empregabilidade para as pessoas que
atende, com base no decreto que obriga empresas com mais
de cem funcionários a contratar pelo menos 1% de
deficientes.
"Muitas empresas já estão nos procurando", revela a
coordenadora. "Por isso, nosso principal objetivo agora
é conseguir prepará-los para o mercado de trabalho."
Wagner Rocha, 46, aposentado, esta fazendo o curso há
quatro meses. Em 93, quando ainda atuava na área de
nutrição, levou um tiro durante um assalto. A bala
entrou na têmpora esquerda e saiu pelo olho direito.
Perdeu a visão nos dois olhos.
Desempregado há cinco anos, desde que se descobriu
portador de uma doença chamada stargardt (espécie de
degeneração da retina), o arquiteto Ailton Cataldi, 38,
freqüenta o curso porque quer voltar ao mercado. "Estou
me preparando para disputar uma vaga", conta.
Nos últimos seis anos, a doença vem avançando, mas
sua vista ainda não está zerada. Cataldi, que tem um
filho de 9 anos, chegou ao centro pelas mãos da mulher,
estudante de pedagogia na Unicid.
O engenheiro civil Jorge Ogata, 48, está matriculado
para a próxima turma de informática, que começa em
fevereiro. Ele perdeu a visão nos dois olhos devido a
seqüelas da síndrome de Steven Johnson - grave reação
alérgica a medicamento (provavelmente dipirona).
No dia em que a reportagem conheceu as instalações do
centro de apoio, a mãe de Jorge, Luiza, o levou ao
local. "Ele queria saber detalhes sobre as aulas de
computação e pediu que o acompanhasse", conta. Ogata
ficou cinco anos afastado do trabalho ("ainda bem que a
empresa segurou as pontas"). Voltou ao emprego há 18
meses. "Ainda estou em tratamento, há algumas chances de
recuperar parte da visão no olho direito. Quero me
aperfeiçoar."
Uma das crianças mais queridas pela equipe do CAAD é
Thais Silva Esteves, 6, que brinca ali diariamente,
acompanhada da mãe, Roberta Esteves, 24. "É importante
ensinar aos pais que a estimulação correta de uma
criança que não tem visão é completamente diferente",
diz a coordenadora Edileine Vieira.
Aos 2, Thais fez uma cirurgia para retirada de um
tumor no cérebro. O nervo óptico foi afetado, e ela
nunca mais enxergou. "O que é isso, mãe?", ela pergunta,
enquanto brinca de cozinha. Depois de alguns segundos
tocando no objeto, responde a própria dúvida: "Ah, é uma
colherzinha!".
Ao ser fotografada, se interessa pela câmera. "O que
é isso?", indaga, tocando no equipamento. “É uma máquina
fotográfica", responde em seguida.
"Um deficiente pode virar um grande profissional,
pode vencer em muitas áreas", diz Ruberval José Gozzo,
psicólogo do CAAD que presta apoio a deficientes e a
seus familiares. "É só lembrar da última edição da
Paraolimpíada."
Outras instituições de apoio
Segundo a Organização Mundial da Saúde, pelo menos 1%
de população brasileira é cega ou tem visão subnormal
(cerca de 1,6 milhão de pessoas). Em São Paulo, há
algumas instituições que oferecem apoio a quem sofre
desse tipo de deficiência.
A Fundação Dorina Nowill para Cegos, que existe desde
1946, investe na educação e reabilitação de deficientes,
cobrindo todas as faixas etárias. As mães podem aprender
sobre estimulação de bebês cegos. Quando cresce, a
criança recebe treinamento para estudar em escolas para
alunos com visão normal.
Para adolescentes e adultos, há atividades do
dia-a-dia, exercícios que promovem a independência e
programa de colocação profissional. "Atendemos cerca de
500 pessoas por ano", diz Dorina Nowill, uma das
fundadoras da instituição, cega desde os 17 anos em
decorrência de um problema na retina. O atendimento é
gratuito.
No Laramara, há nove anos em cena, as crianças
portadoras de deficiência (visual, auditiva, física ou
mental) recebem aulas de braile e de orientação e
mobilidade. Há atendimento também às famílias, e os
adolescentes podem fazer cursos de informática e de
telemarketing. "Estamos dando treinamento para a
garotada entrar no mercado de trabalho", diz Antonio
Carlos Barqueiro, 45, consultor técnico (que também é
cego).
Barqueiro conta que o Laramara já tem convênio com 20
empresas de recursos humanos interessadas em selecionar
deficientes. “A procura está aumentando, isso é uma
tendência", acredita. Na casa, dos 170 funcionários, 30
são defi¬cientes. Este ano, a instituição começou a
oferecer assistência também a adultos. Quem quiser se
inscrever passa por uma análise sócio-econômica. "Cerca
de 90% dos nossos atendimentos são gratuitos", calcula o
consultor.
Aulas de espanhol, tear e braile, além da uma
academia com judô, futebol e natação, são oferecidas
pelo Cadevi (Centra de Apoio ao Deficiente Visu¬al) para
deficientes partir de 12 anos. No ano que vem a
informática será inserida no programa.
“Também temos um projeto de começar a oferecer apoio
a crianças", diz William César, um dos diretores da
instituição, que existe há 16 anos. É pedido que cada
associado contribua com R$ 10 por mês. "Mas não exigimos
que ele pague", afirma César.
Serviço:
CAAD (Centro de Apoio Acadêmico ao Deficiente). R.
Cesário Galeno, 448, Tatuapé, tel. 6190.1214
Cadevi. R. dos Eletrópios, 338, Vila Mirandópolis, tel.
5589.5241
Fundação Dorinha Nowill para Cegos. R. Dr. Diogo de
Faria, 558, Vila Clementino, tel. 5549.0611
Laramara. R. Conselheiro Brotero, 338, Barra Funda, tel.
3662.6177
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