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Visão Subnormal: "Existem caminhos, existe o que fazer e tudo depende basicamente do oftalmologista"
  Jornal Oftalmológico Jota Zero | Maio/Junho 1997

O Setor de Visão Subnormal da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo obteve recentemente importantes incentivos para a continuidade de seu trabalho como centro multiplicador da subespecialidade pelos hospitais universitários do Brasil e da América Latina. Primeiramente, este projeto foi reconhecido como ação oficial do C.B.O. no combate à problemática da cegueira e baixa visão. Também recebeu o apoio da Organização Pan-Americana de Saúde, ligada à Organização Mundial de Saúde (OMS - órgão da ONU) que reconheceu que a experiência desenvolvida pelo setor é, sob todos os pontos de vista, meritória e merece ser estudada e ampliada para os outros países, principalmente entre os chamados em desenvolvimento.

A Santa Casa de São Paulo foi pioneira no Brasil no trabalho com crianças portadoras de baixa visão. O setor foi fundado em 1982 e hoje é responsável pelo atendimento de aproximadamente 700 crianças por ano. Em 1987 a disciplina "visão subnormal" passou a fazer parte do programa para a formação de residentes em oftalmologia da escola e em 1994, por sugestão da Comissão de Ensino do C.B.O., passaria a fazer parte dos cursos de especialização credenciados junto à entidade. A partir de 1992, o setor transformou-se num centro multiplicador e iniciou um trabalho de treinamento de oftalmologistas e assessoria para hospitais universitários do Brasil e da América Latina com o objetivo de implantar serviços semelhantes.

Para Silvia Veitzman, professora assistente da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, Chefe do Setor de Baixa Visão e coordenadora de Programas de Baixa Visão e Prevenção da Cegueira Infantil, as manifestações de apoio recebidas nas últimas semanas são de extrema importância e constituem-se num grande incentivo para a divulgação do trabalho realizado pela Santa Casa de São Paulo para a multiplicação de centros de estudo e tratamento de baixa visão nos hospitais universitários do Brasil e da América Latina e contribuem para consolidar da noção de que grande número de pacientes podem ser melhor atendidos se forem considerados como portadores de baixa visão e não como cegos. Esclarecendo que prefere a terminologia "baixa visão", predominante no resto do mundo, à "visão subnormal", adotada no Brasil, Veitzman afirma que "ainda hoje nosso trabalho encontra resistências, principalmente por parte de alguns oftalmologistas que, quando não podem contribuir para a melhoria da visão do paciente através dos meios clínicos e cirúrgicos disponíveis, consideram que sua missão está terminada, quando na verdade não está. Existem inúmeros meios para fazer com que grande parte destes pacientes utilizem da melhor forma possível a pouca visão restante para desenvolverem uma vida mais independente e com mais qualidade. Informar-se e utilizar-se destes recursos é uma tarefa que o Oftalmologista não pode delegar a outros, sob pena de estar abrindo mão de uma parte importante de sua profissão".

Frutificando a idéia

Com a colaboração de entidades e organizações não governamentais do exterior, o Setor de Baixa Visão da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo recebeu, em 1992, nove oftalmologistas para um o início de um programa que compreende treinamento na criação de setores de baixa visão em hospitais universitários, acompanhamento dos resultados e assessoria para a consolidação destes serviços nas cidades de Manaus (AM), Fortaleza (CE), Recife (PE), Belo Horizonte (MG), Rio Claro (SP),Vitória (ES), Porto Alegre (RS), Erechim (RS) e Maringá (PR). Atualmente seis destes serviços estão em funcionamento, atendendo, em média, 190 pacientes por ano (veja os números na tabela da próxima página). Em 1995 foi criado um serviço semelhante na Universidade Federal do Rio de Janeiro, junto ao Instituto de Pediatria e Puericultura Martagão Gesteira, com a participação do Departamento de Oftalmologia Infantil. Em 1996 o programa foi ampliado para países da América Latina e já recebeu oftalmologistas do Peru, Equador e Paraguai. No último curso da Santa Casa recebeu oftalmologistas da Universidade Federal do Piauí (PI), da Universidade Estadual de Londrina (PR), Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (Sorocaba-SP), da Universidade Regional de Blumenau (SC) e da Universidade Federal de Uberlândia (MG).

O programa é baseado numa parceria com duração prevista para três anos. Começa com um curso teórico prático do oftalmologista no Setor de Visão Subnormal da Santa Casa e depois numa série de atividades de monitoramento, assessoria e acompanhamento na montagem e no funcionamento do novo serviço. Durante todo o processo existe troca de informações para a comparação das diferentes realidades geográficas e sociais e para o estabelecimento de novas estratégias de tratamento e prevenção.

"Além do objetivo principal de criar novos centros para atendimento de crianças portadoras de baixa visão em todo o País, o programa também tem a finalidade de coletar dados sobre a real situação da cegueira infantil no Brasil, visando o estabelecimento de políticas e procedimentos para melhor combatê-la e preveni-la", declara Sílvia Veitzman.

De acordo com a oftalmologista, até pouco tempo acreditava-se, e ainda hoje muitos acreditam, que tais casos só poderiam ser examinados depois que a criança fizesse sete anos, já que não havia, ou acreditava-se que não houvesse, meios para avaliar a acuidade visual.

A base da atuação do oftalmologista na subespecialidade de visão subnormal consiste na obtenção de informações que o ajudarão a decidir sobre a prescrição de recursos ópticos e não ópticos que permitem, por exemplo, a magnificação, isto é do aumento da visão dos objetos, através do uso de aparelhos e lentes especiais que permitem que a criança possa acompanhar aulas numa escola convencional ou mesmo digitar um microcomputador. Além disso, existe todo um trabalho multidisciplinar que envolve profissionais de pediatria, neuropediatria, otorrinolaringologia, genética clínica e da área de família a melhor qualidade de vida possível.

"Muitos pensam que os custos financeiros são proibitivos para um trabalho deste tipo. Não é verdade. Com algo em torno de R$ 5 mil pode-se instalar um serviço de atendimento aos pacientes de baixa visão. Existe uma Portaria do Ministério da Saúde que possibilita a obtenção de alguns aparelhos e lentes especiais através de órgãos governamentais, pois são considerados próteses e órteses. Existem caminhos, existe o que fazer e tudo depende basicamente do oftalmologista", conclui Sílvia Veitzman, com o entusiasmo próprio daqueles que acreditam (e amam) no que fazem.

Baixa visão?

A definição da chamada visão subnormal ou baixa visão ainda é controvertida em certos meios oftalmológicos. Para a OMS o portador de baixa visão tem acuidade visual inferior a 6/18 (0,3) no melhor olho, com a melhor correção possível, mas igual a melhor do que 3/60 (0,05) e a cegueira como qualquer valor de acuidade visual abaixo de 0,05 no melhor olho – para efeito de estudos epidemiológicos.

Ainda de acordo com a OMS, a prevalência da cegueira infantil seria de 0,8% da população, enquanto que a baixa visão poderia atingir entre 2%.

A noção de baixa visão surgiu logo depois da segunda guerra mundial, quando houve a necessidade de tratar inúmeros feridos que haviam perdido quase que totalmente a visão. E o "x" da questão estava justamente neste "quase", o que levou ao desenvolvimento de técnicas de tratamento e adaptação diferentes daquelas utilizadas para as pessoas cegas.

Em 1960 começou-se a falar em visão subnormal nos meios oftalmológicos brasileiros. Nos últimos 20 anos a especialidade vem ganhando espaço no Brasil, culminando com a criação, em 1995, da Sociedade Brasileira de Visão Subnormal e da Associação Panamericana de Baixa Visão.

Desde seu início, o trabalho desenvolvido na Santa Casa de São Paulo chamou a atenção de inúmeras organizações não-governamentais internacionais: Hilton-Perkins International (EUA), Chris-toffelblindenmission (Alemanha), Fórum Syd (Suécia) e Rotary Internacional. Também recebeu diferentes tipos de apoio de instituições brasileiras. Recentemente, também obteve apoio financeiro do Laboratório Allergan Frumtost para a elaboração de material didático, como um kit de slides com uma aula básica sobre baixa visão para oftalmologistas e dos Laboratórios Alcon e Fundação Safra, financiamento para a impressão de cinco livretos sobre as causas de baixa visão infantil, que estarão à disposição dos colegas e de serviços da área de saúde.

Para Silvia Veitzman, "enquanto nos países desenvolvidos, a visão subnormal é proporcionalmente mais praticada em indivíduos idosos (acima dos 60 anos), a América Latina precisa valorizar ações que atendam também crianças, em virtude do número de anos que estes indivíduos deverão viver com o problema de baixa visão em relação aos adultos".

Estão em funcionamento em hospitais universitários ou públicos os seguintes serviços que atendem pacientes portadores de baixa visão:

  • Núcleo de Visão Subnormal da Fundação Altino Ventura - Fundação Altino Ventura - Hospital de Olhos de Pernambuco - Oftalmologista Daena de Barros Leal - Rua da Soledade, 136, Boa Vista, PE, fax (085) 431-1880;
  • Núcleo de Estimulação e Tratamento Precoce da Maternidade Escola - Hospital Universitário da Universidade Federal do Ceará - Oftalmologista Ana Fátima Teixeira - Rua Papi Júnior, 1.225, Fortaleza, CE, fax (085) 223-4522;
  • Setor de Avaliação, Diagnóstico e Encaminhamento do Deficiente Visual - Secretaria Municipal de Saúde de Maringá - Oftalmologista Patrícia Conceição Rosa - Av. Prudente de Moraes, 885, Maringá, PR, fax (044) 262-3512;
  • Serviço do Hospital Universitário de Vitória - Hospital Cassiano António de Moraes - Oftalmologista Eliza de Pollo Cremasco - Av. Marechal Campos s/nº, Vitória, ES, fax (027) 335-7186;
  • Núcleo de Atendimento ao Deficiente Visual Professor Nassim Calixto - Hospital São Geraldo - Oftalmologista Lucienne Chaves Fernandes - Av. Alfredo Balena, 190, Belo Horizonte, MG, fax (031) 241-1148;
  • Serviço de Habilitação Visual e Visão Subnormal do Centro Princesa Vitória - Oftalmologista Maria Celeste Magaldi Messeti - Av. Dr. José Francisco Castellano, 1.600, Rio Claro, SP, fax (019) 434-6863;
  • Instituto de Puericultura e Pediatria Martagão Gesteira - Oftalmologista Luciano Gonçalves - Av. Brigadeiro Trompowsky, s/ na, Cidade Universitária, Rio de Janeiro, RJ, tels. (021) 590-4742 e 564-2010- ramal 886, Setor Materno-Infantil - Distúrbios do Desenvolvimento;
  • Departamento de Oftalmologia da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo - Setor de Baixa Visão - Oftalmologista Sílvia Veitzman - Rua Cesário Motta Júnior, 112, São Paulo, SP, tel. (011) 224-0122 ramal 727 - fax (011) 221-5881.

Número de pacientes portadores de baixa visão atendidos 1992/1996

Cidade 1992 1993 1994 1995 1996 Total
Recife 102 134 81 198 212 727
Fortaleza 220 260 270 310 320 1380
Maringá 230 290 300 350 330 1500
Vitória 10 30 80 160 200 480
Belo Horizonte 44 134 114 134 139 565
Rio Claro 270 310 330 320 370 1600

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