 |
Imprensa |
|
|
|
|
Falta de Visão |
Sistema
educacional não tem sido capaz de atender, com
dignidade, alunos portadores de deficiências.
Rodrigo Roque da Silva, de 17 anos, pode ser
considerado um vencedor por que conseguiu superar dois
obstáculos da educação no Brasil. Além de estar cursando
o ensino médio, proeza de apenas 32,6% dos brasileiros
com idade escolar entre 15 e 17 anos, ele faz parte dos
pouquíssimos portadores de deficiência que conseguem dar
continuidade aos estudos. Com pouco mais de 8 anos, o
estudante descobriu que sofria de stargardt (doença
hereditária que causa alteração na mácula, responsável
por 80% da visão). A partir daí, continuar os estudos
não foi fácil.
Para freqüentar, atualmente, a sala do segundo ano na
Escola Estadual Di Cavalcanti, em São Paulo, Roque da
Silva precisou enfrentar preconceitos, falta de recursos
de diversas escolas, constrangimentos e habituar-se a
distância entre a escola e a casa em Pirituba. “Eu
passei a terceira e a quarta série lutando, por esforço
e sacrifícios próprios. Durante a aula eu tinha de ir
até a lousa para saber o que a professora havia escrito
para conseguir copiar. Além disso, ficava isolado na
classe. Só a quinta série repeti três vezes", lembra.
Os problemas do menino só foram amenizados quando
finalmente seus pais encontraram uma escola que possuía
sala de recursos para portadores de necessidades
especiais e uma professora especializada em deficientes
visuais, que acompanha seu caso desde então.
Essa é a realidade de pouco mais de 3 mil jovens
portadores de deficiências, matriculados regularmente no
ensino médio, segundo dados de 1999 do Instituto
Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep). O
número é menor ainda se considerarmos que apenas 511
estudantes freqüentam aulas em classes regulares e são
amparados por salas com recursos e profissionais
especializados.
A pedagoga Maria Auxiliadora Dutra Vieira, assessora
da coordenação de planejamento da Secretaria de Educação
Especial, do MEC, acredita que a dificuldade em inserir
essa parcela da população na escola ainda é indefinida.
"A educação especial no Brasil está em um momento de
transição, institucionalmente ela ainda é incipiente.
Vivenciamos uma mudança de paradigma", acredita.
A principal política do MEC é garantir o acesso à
escola para todos, explica, mas, quando se trata dos
portadores de deficiência, cumprir tal tarefa torna-se
mais complicado, é necessário garantir algumas condições
mínimas, como a eliminação de barreiras arquitetônicas e
didáticas e capacitação de professores e funcionários.
"Hoje em dia, o grande entrave para que haja um número
maior de crianças e jovens com necessidades especiais
nas escolas é o fato de o sistema não estar qualificado
para recebê-los", ressalta.
Segundo ela, a falta desse apoio sustenta o contraste
entre o número de alunos matriculados no ensino
fundamental (195 mil) e no ensino médio (3.190). Maria
Auxiliadora explica que uma parcela significativa da
população portadora de deficiência nem sequer chega a
freqüentar os bancos escolares. "Outros vão a escola,
mas evadem antes de alcançar o ensino médio."
Essa diferença entre os números de matriculados
portadores de deficiência de uma modalidade para outra
não pode ser encarada isoladamente do contexto geral da
educação brasileira, acredita Rosita Edler Carvalho,
professora da PUC do Rio de Janeiro. "A discrepância
entre o número de alunos do ensino fundamental para o
médio não é uma situação grave apenas para portadores de
deficiências. Na verdade, se dá para todos os alunos
indistintamente." Segundo dados do Censo Escolar 2000,
mais de 35 milhões de estudantes brasileiros estão
concentrados no ensino fundamental, enquanto apenas 8
milhões atingem o ensino médio.
A professora faz um alerta: escolas de ensino médio e
profissionalizante não possuem tradição de receber
estudantes portadores de deficiência, pois não têm
professores capacitados para trabalhar com essa
população. "O ensino médio resiste a receber esses
alunos, que vêm defasados no que se refere a suas
experiências e conteúdos escolares."
Apostando na identificação precoce dos problemas de
visão, o Instituto Vidi para Visão e Desenvolvimento -
entidade criada pela sociedade civil organizada em
meados de 2000 - tenta ampliar os serviços públicos
dirigidos para crianças com visão deficiente e, por
outro lado, conscientiza pais e comunidades acerca dos
direitos dessa parcela da população. "Indiretamente,
nossas ações também trazem benefícios para a educação
porque os pais são incentivados a procurar os direitos
dos filhos”, acredita Silvia Veitzman, oftalmologista
especialista em baixa visão.
A iniciativa conta com ajuda financeira da World
Childhood Foundation (WCF), criada pela rainha Silvia,
da Suécia. Em março de 1999, a instituição entrou em
contato com lideranças comunitárias e órgãos públicos do
município de Embu das Artes, em São Paulo. A aproximação
teve como objetivo procurar estudantes que não eram
identificados como portadores de problemas visuais. "As
crianças que não perderam completamente a visão não
costumam ser identificadas. Assim, possuem uma imagem de
péssimos alunos, bagunceiros ou pouco inteligentes",
lamenta Silvia.
Em uma primeira seleção, foram descobertos 25
estudantes que apresentavam problemas de baixa visão,
mas que não tinham nenhum tipo de atendimento adequado.
Segundo a oftalmologista, alguns casos poderiam ser
resolvidos apenas com adaptações que demandavam baixo
custo e um trabalho diferenciado por parte dos
professores.
Silvia acredita que, se outros profissionais da área
de saúde tivessem o interesse em realizar um trabalho de
identificação e orientação da comunidade e da escola,
estariam prestando uma enorme ajuda para essa população.
"Imagino que haja muito mais pessoas que freqüentam as
escolas e precisam de adaptações e recursos especiais,
mas que estão abandonadas", supõe.
|