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Revista Universo Visual | Edição Dez/2004 |
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Se o paciente não vai até o médico ele vai continuar
sem tratamento? Nem sempre. Confira aqui alguns projetos
que levam assistência médica à população carente |
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Foto: Flavio Bitelman |
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Adriana Plut
Muitas vezes uma boa intenção
pode ser mal interpretada. Foi o que aconteceu em uma
missão do Projeto Amazônia Visão – 2000, iniciativa da
Faculdade de Medicina do ABC que leva atendimento
oftalmológico aos índios e à população ribeirinha desde
1997. O oftalmologista José Ricardo Rehder, chefe do
departamento de oftalmologia da Faculdade de Medicina do
ABC e um dos idealizadores do projeto, conta que, numa
das missões, uma tribo chegou a pensar que eles estavam
ali para tirar os olhos das pessoas. “Os índios
começaram a espalhar entre eles que nós queríamos
arrancar seus olhos”, lembra. Eles aceitaram acompanhar
os médicos apenas depois de serem convencidos pelos
profissionais da Fundação Nacional do Índio (Funai). “A
mulher do cacique teve que ir carregada até a lancha,
pois estava com sua visão muito debilitada pela
catarata. Na volta ela já foi andando sozinha, o que
reverteu todo o quadro”, conta Rehder. “Depois disso os
índios não pararam de fazer festa para nós.”
Essa história é um exemplo dos imprevistos que podem ser
encontrados pelo caminho de quem entra na vida de
comunidades organizadas de maneira completamente
diferente da nossa. Participar de projetos com propostas
pouco comuns, no entanto, pode ser muito mais que uma
experiência profissional. Ao prestar atendimento a
populações carentes, o oftalmologista pode aprender
lições de cultura, cidadania e saúde pública. Tudo vale
pela experiência e, no final, trabalhar sem pagamento
pode ser ainda mais gratificante.
Missão ao Xingu
Após dois projetos piloto, em 2005 a “Missão ao Xingu”,
programa da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp),
deve voltar com um novo formato.
Idealizado pelo oftalmologista Rubens Belfort, o projeto
existe desde 1965. Além de tratar a população, desta vez
o objetivo da missão é fazer um mapeamento da miopia e
do uso da palavra escrita nessas comunidades, que,
espera-se, contribuirá para demonstrar a influência do
meio ambiente no desenvolvimento da condição. A
iniciativa acontecerá entre maio e outubro, época da
seca no Parque Indígena do Xingu, sempre com pelo menos
um residente e um tecnólogo em uma das três bases do
projeto.
Segundo o coordenador do projeto, Wallace Chamon, os
problemas mais encontrados até hoje no Xingu incluem a
necessidade de óculos para trabalhos manuais, catarata e
toxoplasmose. Leonardo Castro, residente da Unifesp,
lembra dos presentes que ganhou dos índios como
agradecimento. “Várias índias que não enxergavam mais
voltaram a fazer artesanato. Uma delas até fez um colar
de conchas e deu para um amigo”, conta. “A maioria
gostou muito da gente.”
Chamon destaca a experiência como uma oportunidade única
na vida de um médico. “É uma maneira de conhecer um
Brasil com o qual dificilmente se entra em contato: você
come a comida dos índios, dorme na casa deles”, relata.
Castro concorda. Para ele, a viagem valeu principalmente
como experiência pessoal. Questionado se voltaria se
fosse chamado novamente, ele não hesita: “Se tivesse
oportunidade, voltaria sem dúvida”.
Amazonas Visão
Esse projeto ainda não saiu do papel, mas pode dar o que
falar. A ONG Amazonas Visão é uma instituição que
pretende atuar nas “áreas de saúde e meio ambiente
atendendo a população localizada às margens dos rios da
bacia hidrográfica da Amazônia”.
O oftalmologista Luiz Sérgio Pacheco dos Santos, formado
pela Universidade Federal do Pará e pós-graduado pela
Harvard University, é o idealizador do projeto. O plano
é construir um barco que navegará pelo Rio Solimões em
uma extensão aproximada de 1,4 mil km, levando
tratamento e prevenção visual, odontológica e auditiva à
população.
“No começo pensamos em um barco pequeno, mas depois
chamei um otorrino, um dentista, um clínico e o projeto
foi crescendo”, conta Santos. O projeto do barco (que é
apenas um dos projetos da ONG) inclui um heliporto, sala
para aulas de prevenção e cirurgia, enfermaria e
consultórios médicos. Outra idéia é construir um barco
para o meio ambiente, além de outro modelo que navegará
pelo Rio Araguaia. “Nosso objetivo é montar o barco com
equipamentos de última geração tanto na área médica
quanto na de meio ambiente”, afirma. “Esta estrutura irá
atender, em média, 400 pacientes por dia.”
O plano é interessante exatamente por não ser um projeto
episódico: a idéia é construir uma estrutura de ação
permanente a curto, médio e longo prazo. A ONG está
interessada em contatos com universidades. “Gostaria de
fazer um convênio com as universidades brasileiras. É
uma parceria muito importante, mas que ainda não
existe”, diz.
Os médicos que gostarem da idéia podem se voluntariar
mandando um e-mail para:
info@amazonasvisao.org.br.
VIDI na comunidade
Passar o conhecimento adiante para que a própria
comunidade consiga detectar problemas oculares e lidar
com eles. Esse é o perfil do programa “VIDI na
comunidade”, uma estratégia aprovada pela Organização
Mundial da Saúde (OMS) e difundida pelo Instituto VIDI
(Instituto pela Visão e Desenvolvimento).
Segundo a oftalmologista Silvia Veitzman,
superintendente da entidade no Brasil e professora da
Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, a idéia do
programa é levar os serviços oferecidos nos hospitais
para além dos centros de referência. “A população que
atendemos nas instituições de saúde é muito limitada se
comparada à população da cidade de São Paulo”, diz.
“Mesmo atendendo cerca de 700 crianças por ano em cada
serviço, estima-se que, a cada mil crianças,
aproximadamente 0,8 tenha cegueira total e entre duas e
três sejam portadoras de baixa visão. Não há espaço para
todo mundo.”
A saída encontrada foi delegar parte da função dos
serviços à própria comunidade, mas não sem
responsabilidade. “Escolhemos lideranças locais para
aprender a trabalhar. Eles aprendem como receber e
cuidar dessas crianças, que normalmente ficam
excluídas”, conta. Os casos muito graves são logicamente
encaminhados aos hospitais, mas há aqueles que podem ser
tratados no próprio local. “Existem serviços menores,
mais objetivos, eficientes e que podem resolver o
problema de maneira simples”, explica.
Exemplo de um projeto que faz parte do “VIDI na
comunidade” é o trabalho desenvolvido na cidade de Embu,
em parceria com a prefeitura e com a Universidade
Federal de São Paulo (Unifesp). Desde 2000 foram
atendidas mais de 80 crianças com baixa visão, triadas
por pessoas da comunidade. O programa também fez uma
parceria para treinamento de voluntários da Pastoral da
Criança, que, entre 184 crianças de 93 famílias
visitadas, identificaram 19 com problemas de visão,
sendo duas com toxoplasmose e um com atrofia do nervo
óptico.
| A meta do “VIDI na comunidade” é que, após algum tempo,
o projeto comece a andar com as próprias pernas. Isso
deve acontecer em breve no Embu. “A hora certa de sair é
quando o projeto cria uma motivação pública no
município, o que já acontece por lá”, diz. Quem quiser participar do programa está mais que
convidado. “O VIDI tem um caráter multiplicador, damos
uma abertura muito grande para qualquer médico se
engajar”, encoraja Silvia.
O e-mail para se comunicar é
ividi@vidi.org.br. |

Divulgação |
Amazônia Visão – 2000
O projeto conta com dois navios mantidos pelo Ministério
da Saúde e pela Marinha e que podem ser transformados em
hospitais. A cada projeto um deles é equipado com
materiais de última geração, onde podem ser feitas
consultas e até cirurgias. O “hospital oftalmológico
flutuante”, que possui heliporto e é acompanhado por
duas lanchas, navega pelo Rio Amazonas e seus afluentes.
“Existem lugares onde não podemos atracar, por isso
usamos o helicóptero ou as lanchas para chegar ou
transportar algum doente”, diz Rehder.
Desde 1997 já aconteceram 13 missões, sendo duas por ano
e apenas uma em 2003. Este ano o projeto não aconteceu
por questões políticas, mas deve voltar à ativa no ano
que vem. A missão leva aproximadamente 30 dias e é
dividida em duas equipes, cada uma formada por dez
oftalmologistas, um ou dois clínicos gerais, dois
vacinadores e duas enfermeiras da Marinha. Cada missão
atende, em média, 2,5 mil pessoas, realiza 150 cirurgias
e efetua a doação de mil óculos, fornecidos pelo
Ministério da Saúde através da Secretaria Estadual da
Saúde local.
“O médico que participa de um projeto como este aprende
ensinamentos que não são dados na universidade. É uma
oportunidade que poucos têm e estes se sentem
privilegiados pelo que viveram”, diz o oftalmologista.
No início a equipe era composta exclusivamente por
médicos da Faculdade de Medicina do ABC, mas já foram
convidados oftalmologistas de universidades do Rio
Grande do Norte e do Rio de Janeiro. Os interessados
podem escrever para o
e-mail:
jricardorehder@hotmail.com.
[para ver o arquivo original,
clique aqui ]
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