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  Revista Sentidos | Edição Out-Nov/2004

Centros de reabilitação de universidades e instituições de apoio suprem o que o Estado não
oferece à população. Com qualidade e muita dedicação.

Claudete Oliveira

Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), existem 45 milhões de cegos em todo o mundo e outros 135 milhões de pessoas sofrem limitações severas de visão. No Brasil, a OMS estima que, de cada 1 milhão de crianças e adolescentes até 15 anos, cerca de 180 são cegos e 720 têm baixa visão. Para especialistas, os serviços oferecidos no país são insuficientes para atender à demanda, mas há hospitais e instituições que podem ser considerados referências de qualidade.


Terapia ocupacional: habilidade

Os centros de reabilitação de hospitais ligados à universidades foram os mais citados nesse aspecto, por se dedicarem ao ensino, à pesquisa e oferecerem amplo diagnóstico de todas as especialidades da área da saúde. Foram indicados o ambulatório de Visão Subnormal do Hospital das Clínicas de São Paulo, o Instituto da Visão da Escola Paulista de Medicina e os serviços de oftalmologia da Santa Casa de Misericórdia. Os serviços oferecidos em centros de outras cidades, como o Núcleo de Atendimento ao Deficiente Visual Professor Nassim Calixto, do Hospital São Geraldo, em Belo Horizonte, e o Instituto Benjamin Constant, no Rio, também foram apontados como referências. Os melhores centros de reabilitação estão concentrados na região sudeste.

No que diz respeito às instituições, a Fundação Dorina Nowill para Cegos e a Associação Brasileira de Assistência ao Deficiente Visual (Laramara) foram citadas como referência. Atuando há 58 anos na inclusão do deficiente visual, a Fundação Dorina realiza cerca de 1500 atendimentos por mês, oferecendo serviços especializados nas áreas de avaliação e diagnóstico, educação especial, reabilitação e colocação profissional. De acordo com a coordenadora Maria Regina Silva, a reabilitação da pessoa cega dura aproximadamente um ano e meio. "Ela recebe orientação para entender a sua realidade e adquirir segurança e conforto em sua locomoção independente."

Quem procura pelos serviços da Fundação Dorina passa por uma avaliação sócio-econômica e contribui de acordo com a sua renda. Mesmo assim, Maria Regina garante que 90% dos atendimentos são gratuitos. Além dos serviços oferecidos à população com deficiência visual, a entidade também produz livros em braille e falados. Por ano, são impressas 9,3 milhões de páginas em braille e 10.500 exemplares de audio-livros e audio-revistas.

Já a Associação Laramara é reconhecida pelo atendimento prioritário à criança cega e com baixa visão. Em treze anos de existência, atendeu a 6.500 famílias e contabiliza 700 crianças e adolescentes integrados em algum tipo de programa ou serviço. Eles vão desde apoio educacional a capacitação profissional. Para diagnosticar, intervir e orientar adequadamente, a associação conta com um sistema de avaliação social e oftalmológica e do desenvolvimento integral da criança. "Com essa sistemática, podemos conhecer,  analisar e identificar o ambiente familiar e a comunidade onde ela vive", ressalta a fundadora da Laramara, Mara Siaulys.

Família

A entidade disponibiliza um espaço para o deficiente visual desenvolver todas as tarefas que realiza em sua residência, o Atividades da Vida Diária. "Como em todo o processo, a presença da família é fundamental nessa etapa. O deficiente vai aprender como agir em determinadas situações e a driblar problemas que enfrenta diariamente em sua casa. Já a família poderá entender melhor as necessidades dele e adaptar de maneira criativa o espaço família", diz Mara.

Os recursos tecnológicos também são fundamentais para tornar mais fáceis as atividades do dia-a-dia do deficiente visual. A Laramara oferece um software de voz, o Jaws, que reproduz todas as funções do micro e permite operar qualquer programa, inclusive navegar pela Internet. Esse e outros produtos fazem parte da tecnologia assistiva disponível na associação. (leia quadro)

A consultora para baixa visão da OMS, Silvia Veitzman, acredita que as instituições brasileiras deveriam observar melhor a necessidade específica de cada deficiente visual, a fim de agilizar o atendimento e ampliar o benefício. "Investe-se muito tempo no trabalho de reabilitação dentro das entidades, porque há pessoas que ficam lá por muitos anos. As coisas poderiam ser mais práticas", afirma. "Um exemplo é auxiliar a leitura, ou orientar essas pessoas sobre mobilidade e tarefas que podem executar em casa."

Com os serviços concentrados em uma região do país fica difícil atender à demanda. A fila de espera nos centros e nas instituições citadas giram em torno de três a seis meses. A falta de informação e de recursos humanos para atender ao deficiente visual são apontados pelo coordenador do Serviço de Visão Subnormal do HC, Marcos Wilson Sampaio, como responsáveis por esse quadro. "É importante ampliar os serviços das universidades, para que mais oftalmologistas sejam preparados para avaliar pacientes com baixa visão e melhorar os serviços, aumentando a capacitação tanto na área médica, como na reabilitação."

Silvia Veitzman diz que uma cidade como São Paulo, que tem cerca de 13 milhões de habitantes, precisaria ter ao menos dez centros complexos para dar conta da procura. Segundo ela, para cada 1 milhão de habitantes é preciso de um centro complexo, quatro centros intermediários e de 10 a 14 centros menores - além de profissionais que atuem nas áreas de oftalmologia, reabilitadores, pedagogos e outros profissionais habilitados para atender a este público.

A grande procura dos centros paulistanos por pacientes de fora da cidade acentua as falhas do sistema. A lição de casa deve ser feita também por prefeitos e governadores de outros Estados.

Tecnologia Assistiva

Existem diversos acessórios que facilitam o cotidiano do deficiente visual. São produtos que auxiliam a realização de tarefas simples, como consultar o relógio, fazer operações matemáticas, medir a temperatura corporal e ambiental, identificar luzes acesas e apagadas, cozinhar e identificar cores. A Laramara, por exemplo, vende softwares (leitores e ampliadores de tela), impressoras em braille, auxiliares ópticos (lupas, telelupas e réguas de aumento), além de produtos para a vida diária: medidores de pressão, relógios em braille, calculadoras e relógios que falam.

[Fonte: Revista Sentidos - http://www.sentidos.com.br ]

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